sábado, 23 de maio de 2009
O Filósofo
Leo largara os livros e os bares por um dia e fora procurar pelo complemeno que faltava-lhe naquela altura da vida: uma companhia.
A visão da garotinha crescida, exatamente da mesma idade da sua irmã mais nova, quase o apavarou. Nimue não poderia estar mais bonita, por outro lado. Ainda havia algo de delicado, infantil ou angelical em sua expressão, mas a ferocidade do olhar intensificara-se com os anos.
- Você age como a maré. - Dissera-lhe um dia, convicto de que aquela era uma verdade tão fundamental quanto o céu azul, ou o decorrer de dias e noites.
E ela era, de fato, a maré sedenta por emoções, sedenta por sentir. Navegava junto com a montanha-russa de emoções do primeiro amor, do primeiro beijo, e sempre queria mais. Era algo puro. Eles uniam-se pelo conhecimento e compreensão mútuos um do outro.
Cada um fizera do outro o porto seguro, onde poderiam ancorar qualquer que fosse a situação. Ou assim parecia...
Nimue desejava acreditar que o ato seguinte fora causado somente pelo passado sofrido de rejeição, mas ressentia-se em ver que fora impotente e que jamais poderia impedi-lo.
Ele era o Enforcado. O mesmo à frente dela, em cores fortes, na carta de tarot. Ele era um de seus castigos. Era a sua punição maior, a punição conhecida. Ela sabia que chegaria cedo ou tarde...
Ele matara uma parte preciosa dela. Nos volteios da mente conturbada pelo luto insuportável e pelo incoformismo, ela acreditava compreendê-lo.
Leo era o filho do meio da família Soris. Tinha uma irmã mais velha e outra mais nova. A mais jovem, Sophie, tornara-se a menininha de Leo. Este afeto incomum era explicado por fatores além da ternura que se vê entre irmãos, pelo fato de desde criança Sophie apresentar doenças seguidas, ou por laços sanguíneos.
Apesar de terem um teto, educação, saúde e comida, tinham apenas um ao outro.
Monica, a irmã mais velha, do alto de uma grande diferença de idade, mudara-se a fim de frequentar a universidade. A mãe não passava de uma sombra, ressentida, magoada, traída, e desesperada, que refugiava-se no trabalho. O pai trocava a jornada tripla de trabalho - que parecia ser mais por avareza do que por necessidade - por uma dupla jornada familiar: Constituíra outra família a apenas cem quilômetros do outro lar.
A ausência paterna era vista até como um alívio para Sophie e para Leo. De Sophie, ele cobrava coisas fora de alcance para uma criança ainda em tenra idade, construíra uma prisão para ela. E Leo tinha sorte quando o pai fingia não saber de sua existência, porque uma vez ciente da presença do garoto, o homem saía de controle por razões inexplicáveis.
Leo refugiara-se nos livros, na filosofia, no ato de lecionar que ele considerava tão nobre. Sophie passara por provações inimagináveis na tentativa de provar a si mesma que conseguiria algo da vida, torturara-se noite e dia para sentir-se menos miserável.
Nenhum dos dois jamais mencionara o passado familiar, mas quem quer que convivesse com eles durante a infância perceberia algo errado...
E Nimue percebeu. Percebera que a semelhança entre eles era enorme. Intuíra que sua melhor amiga e o irmão mais velho dela tinham problemas senão iguais, muito parecidos aos dela. Teve um impulso, vontade de agir para ajudar certo dia, mas fora detida por algo muito mais forte que a consciência...
"Não interfira!"
Tal pensamento tornara-se uma constante. Pensamento intruso, jamais partiria dela. Ela precisava agir, de alguma forma...
2:35
Madrugada insone. Alvoroço. Castigo, crime e libertação. Um funeral durante a manhã de sol, em meio a irmãos aflitos.
Podia apenas guaradar as memórias, tentar não julgar aquele que se fora. Parar de buscar explicações, parar de achar que era egoísmo, porque ela sabia que era algo além disso...
Restava-lhe, talvez, pedir desculpas aos outros enlutados, mesmo sem ter um motivo concreto.
Leo partira da mesma forma que vivera, nos bastidores. Holofotes jamais o atraíram, e o único momento de atenção que tivera na vida provavelmente foi insuportável. O nó na garganta fora incômodo demais? Certas indagações tomariam a eternidade. E tempo é o que menos se tem, então todos fecham as janelas e as cortinas e sufocam seus fantasmas...
Nossas vidas são descontinuadas. É saber do futuro tendo a sombra do passado a golpear minúsculas esperanças. Queremos tudo. Tudo é sempre demais, sempre é sempre demais...
_
Era seu primeiro mês ali, e já havia uma pilha imensa de livros no cômodo pequeno, escuro frio e barulhento. Dispensava qualquer explicação racional para estar ali. Dera-se conta no momento que chegara. Aquele jamais seria seu mundo. A cidade a sufocava com o relevo montanhoso, e ela acostumara-se a idolatrar o horizonte amplo e respirável.
Mais, havia a vida real. Havia as contas a pagar, o futuro que parece tão distante, as vidas que passam por ela, a fragilidade, o declínio, a súplica. Havia as expectativas em torno de si, terrivelmente aumentadas.
Sempre fora a "criança prodígio", mas cansara-se de tal pantomima de agradar com desempenho. Não precisava provar nada a ninguém. Sua real necessidade era viver, experimentar.
Uma ligação no meio da noite, e ela já sabia o que tinha acontecido. Intuíra, e fora impotente demais para evitar os desígnios misteriosos da vida. Restava-lhe esquecer as explicações e guardar a memória de seu irmão. Restava-lhe tentar encontrar forças.
Eram essas as lembranças que a assombravam a cada contato que tinha com Nimue. Suas vidas entrelaçavam-se de tal forma que jamais se desatariam, e jamais permitiriam uma aproximação como a de antes. Tudo devido à perda. Nenhuma delas sabia como lidar com isso, era a verdade.
- E hoje, senhoras e senhores, cada um dará um desfecho à história da Princesa Perdida. Quem quer começar?
Sophie olhou com ternura a mãos pequeninas e frágeis erguendo-se com animação. Talvez aquela fosse a emoção de uma mãe orgulhosa, que nutre seus filhos com a esperança...
- A tia Sophie é doidinha... - Mais do que um julgamento, indo daquelas crianças, aquilo era um elogio.
Sophie rodopiou, apertando o nariz de palhaço e fazendo o jaleco aberto esvoaçar. Colocou uma mão sobre os olhos e com a outra apontou, para descobrir os olhos logo depois.
- Você começa, Jim.
Jim colocara a mão no queixo, com a austeridade de quem faz questionamentos filosóficos e esboçara um sorriso.
- Ela precisa voltar para casa. Por isso, terá que viajar bastante. Vamos começar contando a história da viagem.
Respirar ainda era um suplício. Contudo, envolvera-se tanto quanto Sophie na história, e isso a fazia esquecer a própria dor. Aquele era o remédio para a sua alma, que ela negligenciara por semanas devido a problemas com o vício.
Se alguém deseja saber o que é a loucura, deveria experimentar isso. Muito melhor do que doses e mais doses de álcool...
A noite anterior passava-lhe intermitentemente qual um filme em câmera lenta, cada detalhe agarrando-se a ela. Tal qual a lembrança de um momento, quando todo o resto deixava de importar.
Não importava a pesada e trágica maquiagem desfazendo-se, após horas a fio de palco, após horas a fio de esforço e tragédia. Fedra, trágica traidora.
Não faria diferença alguma que ela tomasse mais algumas doses de destilados, ninguém iria ao seu encontro. Ninguém perceberia quando ela passasse. Jamais se importariam com a triste caricatura de uma insone. Ou com o cigarro a meio caminho, entre a mão e a boca, a luta entre vontade e necessidade. Ninguém. Universo de ninguém.
O jogo resumia-se a tudo ou nada, e ela era parte da multidão de “ninguém”.
Talvez...Talvez ela devesse recorrer àquele velho recurso. Passara dois anos sem abusar das drogas ilícitas – o que não excluía tarjas-preta facilmente obtidos. – Já começava a sentir falta. Não a falta da abstinência, mas a quase-saudade quase-doce de uma terra prometida ou de uma infância esquecida.
Sequer ousara perguntar-se porque chegara ali. Motivos e explicações estavam fora de alcance. A custo, ignorou as peças que sua mente insitia pregar-lhe; latas de lixo, postes de iluminação, e árvores, mesmo os balanços da praça pareciam persegui-la. Acusavam-na.
Disfarçou o melhor que pôde – e estava convencida de que podia bastante, ela era uma excelente atriz, afinal – o tremor, e exibiu um sorriso nervoso por alguns segundos, antes de aproximar-se do homem. Talvez fosse ele quem ela procurava.
- Muito cedo para já estar fora de casa, não acha? Por acaso você é, ou conhece alguém chamado Gibreel?
A voz não era mais do que um murmúrio. Nimue jamais atribuíra a maneira contida de falar à timidez. Pelo contrário, de outro modo, seria incapaz de expor-se tanto. Estranheza. Desde muito cedo, pensava em dois mundos, separados por um véu. O lado de dentro, o isolamento, a segurança; o lado de fora, o exterior, a liberdade, os atrativos do desconhecido, o mundo do outro.
Fitou-o enquanto aguardava pela resposta. Talvez tivesse falhado na tentiva de esconder a tensão. Questiona-se se ele repararia no seu estado lastimável, ou se essa preocupação era infundada. Ao menos, ele não virara as costas para ela...ainda. Era algo a se considerar.
quarta-feira, 20 de maio de 2009
Sombras
E era isto o que fazia. Esperava, e vivia um dia após o outro. Era o único remédio que encontrara. Os pequenos detalhes lhe diziam sobre o dia, que ela não estava vivendo tudo repetidamente. Falas decoradas, figurino ajustado. Só a sua face não se encaixava. Sua face vinha de outro mundo, de outra época. Sua face era marcada pelo tormentos dos ecos nas paredes e nos espelhos.
Tessália, Grécia. 604 a.C.
As mãos sobre a boca davam o testemunho do atraso. Ela gritara e envergonhava-se disto. Anos de controle, de disciplina. E por um pesadelo, gritava como uma criança. Que iriam dizer as outras sacerdotisas? Que a recém-chegada espartana temia, afinal. Temia, porque fora exilada.
Fora condicionada a agir, entretanto. Por isto, mal percebeu o tempo que decorreu entre a tentativa de abafar o grito e o amanhecer. Tinha fragmentos do que acontecera, os pés descalços sobre a relva, e depois sobre a terra, o manto fino que ela apertava contra o corpo, a fonte onde deteve-se por minutos. Aquelas imagens não faziam sentido.
Adormecera na parte alta, e despertara antes do astro-rei, como de costume. Achava que deveria estar desperta para saudar Apolo quando ele chegasse. Sabia que as outras consideravam seu comportamento estranho, e as palavras chegavam aos seus ouvidos com o vento.
- É uma selvagenzinha! Sempre metida no meio da floresta, ora na montanha, e ontem mesmo, nadando! Não sei como a aceitamos aqui. Não é o lugar dela! Seria de mais utilidade em uma Panicéia, não no Templo de Apolo. Em Delfos, não aceitaríamos isso. Mas fazer o quê? Até um recanto do fim do mundo precisa de sacerdotisas e oráculos. Ai! Não assim, por Héstia!
A tagarelice descabida não parava. A todo momento eram críticas, e correções e reclamações da velha.
"Charlatã!" - foi o único pensamento coeso da jovem em relação à outra mulher. Mesmo com a hostilidade silenciosa, continuou com o trabalho.
O recipiente com água tombou ao chão, juntamente com a jovem que o carregava. Ambos sobrecarregados. como bem demais como esconder as lágrimas, uma gota, porém, faz todo o conteúdo transbordar...
- Nós nos condeneramos. - Sentia os lábios movimentando-se, mas as palavras não eram suas. Eram um eco distante, mais imposto que sugerido. - Ele está chegando.
Rodava o jarro com mãos ágeis, semi-consciente do que falava ou fazia. Mas o forasteiro mudaria tudo...
Avalon
A severidade no rosto de Morgana extrapolava o usual. Era a visão da Deusa exigindo sangue, vingança e domínio, ao mesmo passo em que havia lampejos de compaixão.
Era uma visão terrível para quem já sentia-se enferma, desalmada e perdida. Se todos os deuses se apiedassem dela, ainda assim aquele castigo feriria sua alma. Irremediavelmente.
Precisava afastar-se da Ilha. Precisava fugir. Não suportaria testemunhar o que aconteceria dentro de minutos, embora já tivesse visto as cenas repetidamente por dias, embora soubesse exatamente qual seria o destino de Kevin.
Kevin, que mostrara-se doce e amoroso, apesar de tudo. Kevin, que fora sua porta para o mundo. Não apenas do corpo, nem o puramente físico, mas o mundo fora de sua reclusão. As cortes, o colorido frenético das festas, as fogueiras, a música. Ele lhe mostrara a vida em plenitude.
Não se perguntava mais para onde estava indo quando o clarão aconteceu. Não era necessário. Estava retornando. A terra e o ar foram substituídos por água e frio, e a angústia por uma pontada aguda no peito. Acontecera. Aos dois.
Camelot
"Hoje o Bardo calou-se,
estafado.
Para o horizonte curvou-se,
condenado
à sina do pecado.
A noite estende
o negro veludo.
A noiva não compreende
os trajes de luto.
A donzela foge,
pendura-se no sagrado,
sua alma escorre,
junta-se ao lago.
Ó almas nobres
de destino trágico selado,
de quantos crimes
sereis acusadas?
O fogo persistente
clama por séculos
a alma do presente,
e pelo reencontro."
Silêncio. Foram longos minutos de silêncio e um golpe aplicado friamente. Jamais imaginara-se capaz daquilo. Não se reconhecia. Aquela não era ela. Não poderia ser. Aquele não era o destino dela, nem o de Kevin.
Encontrava-se desconsolada e desolada. Era um luto anunciado.
Antes da lua desaparecer, os raios iluminando seus aposentos nas noites anteriores se transformavam em relâmpagos, raios de uma terrível tempestade. O amor e as vidas aprisionadas na árvore...
Londres, 2008
Já era o segundo ano na cidade e Nimue descobria um detalhe diferente a cada dia. Descobrira que apreciava o silêncio e a calmaria das tardes de outono, com as folhas forrando o chão, e a luz do sol amena.
Prefiria caminhar, e sempre encontrava uma rota diferente nos trajetos entre o campus e a casa, a casa e o teatro e entre as variáveis.
Surpreendera-se com um olhar. Um olhar, apenas, fora o suficiente para derreter a geleira dentro dela. Mal dera-se conta deste resfriamento até então.
Por alguns dias, perseguiu quase obsessivamente o dono do olhar, sem sucesso. E sem imaginar que ele pudesse estar tão próximo dela...
terça-feira, 19 de maio de 2009
Os Demônios Sutis
A vida é delicada. Asas de borboletas, pétalas de flores. Um toque, ou uma maneira incorreta de tocar, põe tudo a perder...
Acontecia a qualquer hora. Sem aviso. Pequenas mortes súbitas. Pequenos pontos de ferrugem acumulando-se pouco a pouco, o arrastar das horas, a chuva fina que não passa (mas pesa). Eternas interrogações.
Suspirava porque recusava-se mesmo a respirar como os outros. Os Outros, as Visitas, a espantavam. Com todos os olhares críticos, funestos, vazios. Opacos. Reais. Mais a assustava era a realidade, olhares como objetos palpáveis e a piedade forçada que refletiam.
“E...Deus!” – Exclamava, para logo depois perder-se. Existiria mesmo um Criador, uma Inteligência Superior ou o que fosse? – “Não, não. Impossível. Quero crer no impossível”.
Ensaiava a queda. Com saltos. Fuga interrompida. Retalhos de seda no arame farpado. Não era um momento para a platéia.
Distanciando. Aproximando. O ritmo mudava, e as expressões pavorosas ficavam, espreitavam. Almas mumificadas em casulos.
Não se sustentavam. Quem não se sustenta, precisa de clausura. Ela desfizera completamente o próprio casulo, a custo de sustos, e até a custo de sonhos. Tudo para viver o mundo. Ou viver fora dele.
Divagava e alucinava. Se tivesse um mar perto, cedo ou tarde entraria e deixaria-se tragar para o fundo, apesar de saber nadar. Sonambulismo como cargo vitalício. Era uma sonâmbula. Entorpecida, pálida, magra demais: quase invisível. Quase, porque sabia que exisitia, e sabia que a imagem no espelho é um reflexo.
Apanham-na. Mal sabem que a prisão começa a esfacelar o ser já fragilizado. Mal sabem que ela se entrega totalmente a tudo, e a todos...
Agora são as mãos dos outros o objeto do terror, mãos sequestradoras. Apreendem o ser esfacelado.
Em algum plano distante, em alguma perspectiva que vem do interior dela, a platéia aplaude a fragmentação. É apenas isto o que querem: não pedaços, mas um grão dela.
Colocam-na atrás de grades douradas, algo que já deixou de importar há muito. Jamais faria diferença, na verdade. Grades são grades, certo? O mesmo método de privar da liberdade. O ouro não importa. O tempo corre sem clemência, o passado espreita pela janela da vida e sopra segredos ao vento...
A mão pequenina do garoto afastara-se dos cabelos dela para pousar sobre a boca de criança.
- Psiu. Você não quer acordá-la, Viviane. Se a tia Sophie descobre que estamos aqui, estamos no sal.
Viviane retorceu os lábios, contendo o choro.
- Ela vai ficar bem, não vai?
- Que pergunta! É claro que vai. Não vê que nós estamos aqui, de pé? Ela vai melhorar logo.
As crianças conversavam através de sussurros. Quando abriu os olhos, a luz do quarto sobrepujava a luz da tarde alta. Tudo estava ainda desfocado, via apenas vultos alternando-se com o clarão.
Perder acrescenta. Acrescenta distância no olhar e medo de deixar-se tocar.
Os passos de Sophie Soris eram apressados como sempre, porém ainda causavam estranheza entre os demais funcionários sorumbáticos do hospital. Em suas palavras, eles pareciam mais doentes que as pessoas que eles atendiam diariamente.
Prontamente impuseram-lhe a loucura. Não sabiam que ela levaria a sério, e daria um golpe de Estado todas as terças-feiras. Rir seria lei por um dia, no pequeno reino de paredes brancas.
Aquela terça-feira, entretanto, era atípica. Sophie sentiu a máscara cair. Os sentimentos conturbados inundavam-lhe o ser. O mundo girava rápido demais, enquanto seus passos eram miúdos, vagarosos, sofridos.
O semblante retomara a seriedade que não fora visto por anos, uma rigidez quase desconhecida. Tentara a todo custo fingir que estava tudo bem, tentara retomar a essência que impusera a si mesma. Mas não admitiria perder mais alguém.
"É uma criança!"
O dia carregava surpresas.
Deparou-se com Michael e Viviane adormecidos ao lado de Nimue. Ela, aparentemente, tinha recobrado a consciência, mas ainda assim, os olhos pareciam seguir objetos irreais e a fraqueza era mais do que evidente. Não era hora de censurá-la, mas os olhos de Sophie denunciaram o desgosto.
- Sei o que está pensando. Mas cheguei a um ponto em que nem eu sabia o que estava fazendo, ou onde estava.
As palavras foram pronunciadas em um fio de voz trêmula. Sophie apertou os olhos e os punhos, na tentativa de defender-se de perigos incorpóreos. De fantasmas e memórias. Jamais poderia cogitar que a melhor amiga, desde a infância, algum dia atentaria tão violentamente contra a própria vida.
Que demônios a atormentavam tanto, se as experiências eram, de certa forma, semelhantes? Sophie lutava contra o pensamento egoísta, negando-o. Foi inevitávvel, entretanto. Havia uma inversão de papéis ali. Um amor pode ser encontrado cedo ou tarde na vida, mas um irmão jamais é substituído.
terça-feira, 5 de maio de 2009
O Enigma do Amor
é um dos meus complexos castigos.
Adivinho através do véu que te cobre
o choque ante a palavra divina, a antecipação da morte."
(Murilo Mendes)
- ...desvarios de Eros.
Por uma semana, o sorriso abandonara a expressão habitual de zombaria. Compreensões incompletas. Eros construía sonhos alicerçados em melodias perenes. Nimue habitava estas promessas, e sorria como jamais havia se permitido.
Ninguém gosta de ver algo belo se desfazendo. Poucos apreciam restaurar algo belo: é necessário tempo, esforço e dedicação.
O Amor lhe devolvera sua essência, e os seus dias. Ele em pouco tempo tornara-se o alento, o porto seguro; restaurava a alma. Chegava a ser uma quase-felicidade proibida. Quase perfeita. Amor entretanto, sofre a atração irresistível e magnética pelo sofrimento. Era apenas uma questão de tempo, ou um escorregão, e tudo se perderia. Ninguém gosta de ver algo belo se desfazendo...
A chuva fina era persistente. Os dois encontraram-se em frente à edificação antiga, datada de algum dos séculos passados. Ele, com os passos apressados e a aparência impecável. Ela, encolhida a um canto da escadaria, sem forças para fingir segurança. Amantes aturdidos com a vida que passa, escoa sem querer, com as tempestades cotidianas.
Vagarosamente. Como nas tragédias. Uma pausa para os suspiros e para os sobressaltos. Ela agradeceu silenciosamente pela chuva misturando-se às lágrimas.
Não há arte divina na perda.
Então, acontecia. A pressão da mão sobre o ombro, o olhar cheio de rancor e até mesmo ódio, e as palavras que não precisavam ser ditas. O rompimento. As transigurações mais que internas. O abatimento da mulher, o harpista refugiando-se na música, mas ainda sem afastar-se fisicamente.
Voltas e voltas. A montanha-russa fazia questão de confundi-la, misturando todas as lembranças com as visões recentes e sonhos do passado. Tinha a impressão desconfortável de estar completamente desconectada da realidade, tal qual uma personagem de um livro que descobre-se marionete do escritor, ou alguém que desafia a gravidade, mas tem medo de altura. Era a crueza da realidade, com o paliativo do enigma. Com o inexplicável das emoções descontroladas. E no outro dia, era apenas a chuva, a dúvida, o pranto e o abraço.
domingo, 3 de maio de 2009
Paper Mountain Man
E agora permito-me ser a mulher que se entrega às garras de um predador irresistível. A luz do pequeno deus atrai. Quantas não foram fulminadas pela luz e pela música? Não indefesas, é certo; porém terrivelmente seduzidas...
Ele é um mundo à parte. Tento pôr freio à minha imaginação, e absorver cada segundo, cada movimento, cada olhar. Fragmentos sub-atômicos de nossas almas e lembranças.
A voz preenche as lacunas, me traz de volta ao presente.
- Estive te observando.
Devo pedir desculpas?
- Só queria ouvi-lo.
Diálogo de obviedades.
- É claro. Todos querem.
Preciso ser rápida nessas respostas...
- Não da mesma forma!
Ele suspira, finge cansaço, e há um sorriso de troça brincando em seu rosto.
- Uma admiradora?! Ora, a senhorita me impressiona!
A resposta vem de imediato.
- Obviamente o impressiono! Nenhuma outra foi capaz de passar tanto tempo em silêncio, posso apostar... E pelo que sei de homens como você, logo se vê que forma inúmeras...
Aplausos...Pode parecer paradoxal, mas muitas vezes, são eles que povoam meus pesadelos, ainda mais quando aplicados tão cinicamente.
- Bravo, bravo! Temos aqui uma espertinha. Inúmeras? Se não me engano, foram apenas dez. Para cada ano, a partir dos catorze.
O jogo começa a ficar interessante. Enaltecer o próprio ego não é difícil para mim, mesmo que seja apenas farsa.
- Não uma espertinha, Bardo. Uma mulher brilhante. Genial.
Algo no que eu disse o espanta, pela expressão de quem tenta assimilar algo, e pelo silêncio.
- Uma diva com complexo de superioridade?
Para alguém que convive com atores, a risada foi muito mal disfarçada com um pigarro forçado.
- Absolutamente não! Apenas uma que conhece-se bem! E pelo que vejo, será longo o nosso colóquio!
Arrasto um banco baixo até ficar de frente para ele. Sento-me, cruzando as pernas, e erguendo a cabeça, a atitude artificial de superioridade.
- Oh! Agora compreendo! Uma diva que encarnou bem demais a personagem e não conseguiu mais sair do papel...
Um gesto dramático da minha mão o interrompe.
- Assunto enfadonho. Falemos do Bardo, por hoje. De divas o teatro está cheio. De harpistas, porém...Há anos não temos um por aqui.
Mais um riso abafado.
- Não me parece ter tanta idade assim para falar em anos desta maneira.
- Engana-se. Tenho a impressão, aliás, de que você é alguém que vive em enganos...
- Não sou. Mas posso começar agora, se você está me enganando...
- Não estou.
- Duvido. Mas agora, silêncio, por favor!
Um abraço, e nenhuma possibilidade de fuga. A única saída é abandonar-me em meio ao turbilhão. A noite promete sonhos, estrelas, e canções...
Quanto aos sentimentos, serão deixados de lado por muito pouco tempo. O reconhecimento causa inquietações, dúvidas, e quero apenas viver as possibilidades, enquanto ainda há tempo...
quarta-feira, 29 de abril de 2009
Reflexos
Talvez não me entendam, ou finjam não entender quando falo sobre essa parte cruel. Ela é real. E está lá, possuindo qualquer um que não tenha um mínimo de controle. E controle é algo que desconheço...
O espelho é o espião-duplo instalado no lar. Nunca se sabe qual é o limite da confiança. Na maioria das vezes, a imagem causa desconforto. É como não se sentir bem em uma roupa. Mas não se pode despir o próprio corpo. E o desconforto descontrola...
O espelho mostra os erros. Potencializados, assombrosos, amplificados. Quando se fez tudo certo durante toda a vida, errar parece impossível, e uma vez ocorrido o deslize, não se sabe para onde correr. A própria voz assombra, então é melhor calar-se. Mas nenhum voto de silêncio é eterno, e a ausência da voz não diminui a consciência...
"Eros" ainda toca. Toca docemente, mas a doçura toda me machuca. Me mata. De vontade, é só um pouco...até agora. Até eu tocá-lo.
É previsível, como se fosse uma maldição. Basta um toque, e o sentimento amplifica-se, torna-se violento. Não pensarei sobre isto agora. Quero um nome. Um nome, apenas, e uma apresentação.
Estou certa de que ele me notou aqui, durante todas essas semanas. Silenciosamente. Da mesma forma que o meu olhar. Tão silencioso quanto a fagulha que apenas agora começa a alastrar-se. E tão inevitável quanto o transcorrer do tempo, ou mesmo quanto a morte, a pequena faísca reclamará a grandeza da destruição. E nem mesmo o pequeno déspota de corações sairá ileso.
As chamas estão em mim. Nos olhos, nos braços. Por isto, evito fitar o espelho, evito embalar alguém em um abraço. Por isto, resolvi acreditar que simplesmente fui moldada para a solidão. Por isto, escolhi ser uma expectadora e uma narradora, ou talvez uma figurante, e mais nada.
Ele me surpreende. Deixa-me atônita e quase sem reação. Tira as palavras mordazes habituais de meu pensamento. Ao contrário do que eu poderia esperar, ele se aproxima de mim.
A aproximação lenta e silenciosa, quase sorrateira, tem o efeito de um terremoto em uma edificação já condenada. Encontro-me incapaz de decidir se sinto demasiado ou pouco demais. O isolamento acústico da sala não permite que escutemos mais do que nossas respirações, em pouco tempo já perfeitamente sincronizadas.
A redoma sofre uma ruptura, e por um momento, há a promessa de alguma felicidade. Ou, no mínimo, de um sorriso sincero. Por uma vez. Eros e todos os outros gostariam desse meu novo sorriso? Ou preferem o disfarce distante, quase um sorriso de modelo, raro e forçado, que mesmo assim fica belo em fotografias? Ninguém olha nos olhos.
Olhar nos olhos é aterrador. E obsessivo, uma vez que se aprende a interpretar a alma dos outros. Sob a luz fraca, vislumbro apenas um pouco - mas o suficiente - da alma dele. Tem aquela tristeza distante de quem carregou mágoas por tempo demais. Faz meu olhar parecer um mero recepiente de pequenas revoltas.
Tenho esse péssimo hábito de obsecar-me por coisas, conceitos, e pensamentos aterradores. Hoje, o que aterroriza é o amor. O amor que se aproxima, ao qual inevitalmente nos entregaresmos até o fim, das nossas vidas, ou do amor.
Amamos de imediato porque sabemo-nos semelhantes.
sexta-feira, 24 de abril de 2009
Drop
Há uma verdade fundamental que une essas quase múltiplas-personalidades: me perco sempre em devaneios, sucumbi ao cansaço, abracei a solidão como certeza, e quero transgredir de todas as formas. Mais, tenho medo. Tenho medo desta minha atitude. Me parece que, mais cedo ou mais tarde, ela me levará à loucura. Já estou afogando-me na loucura, gradualmente. Areia movediça, minha mente é um terreno pantanoso e escuro. Ou é apenas o reflexo do mundo?
Então estou aqui confrontando mais um dos temores básicos inerentes à condição humana: o da rejeição.
Talvez eu tenha cometido um erro ao admirá-lo: um pequeno deus, um pequeno sol, cuja imagem é proibida para os mortais. Neste momento, sou Psiquê carregando a vela, movida por uma curiosidade incontrolável de ver o rosto do amado. Mas ainda não o queimei... É terrivelmente mais doloroso sermos repelidos por algo que admiramos desta forma, do que por algo que olhamos com certa indiferença.
Nunca deixamos de ser crianças. Pequenos ditadores dentro de bolhas. Eu mando em mim. É, eu sei que é mentira. Não consigo mandar em mim. Se eu pudesse, me forçaria a acreditar em milagres, em sonhos, em esperanças, e em mim.
Seria pedir demais, e pedir demais é pecado, não é isso o que aprendemos? Quero dizer, que devemos agradecer sempre, aquela coisa toda que se escuta em qualquer liturgia, em quase qualquer rito. No fundo, é apenas mais um artifício para fazer-nos culpados, e apelarmos para alguém que pretensiosamente representa a Entidade na Terra. E então entregamos as vontades, as jóias, o sangue, e invariavelmente, muito de nossa alma e de nossa razão, para nos vermos livres do fogo do inferno (quando muitas vezes, já vivemos em um).
É bem mais fácil acreditar em diabo do que em milagres. De súbito, nos damos conta de que não podemos mais. É uma enfermidade, uma pandemia. Vem silenciosa, sorrateira, não é como outras doenças. Quem pode imaginar que aquele cansaço não vai passar? Quem pode imaginar que um dia encontrará um amigo, talvez um irmão, condenando a si mesmo, com o movimento pendular presente entre a vida e a morte? Mais entre a morte e a vida, com a corda no pescoço. Ontem ele sorria, mas ninguém teve a coragem de olhar nos olhos. É mais fácil culpar o Diabo...
Quero correr. Mais rápido que nunca, até desaparecer em meio ao vento. Até me desintegrar. Já pensou que desaparecer dessa forma, se desintegrando, talvez seja a única forma de fugir? Seria indiferente. Somos descartáveis, todos nós.
Enquanto não nos atiramos de um promontório - É até poético, não? Sempre me lembro de Safo, a poetisa grega, quando falo em promontório. Ela se atirou de um, e quantos outros poetas não? - enquanto não somos substituídos pela imagem envelhecendo, pela identidade turvando-se, recolhemos as gotas de nossos sofrimentos, e vamos engarrafando, até que a dor pareça remédio.
Então chega alguém, sem aviso, e nos distrai. E sem querer, despejamos mais dor do que realmente temos, e deixamos transbordar.
- É para sempre? - Nos perguntam.
- Para sempre! - Afirmamos inadvertidamente. - Porque realmente não precisamos viver como os outros. Porque realmente não precisamos estar no palco a todo o tempo. Então, é para sempre.
"Para sempre" caiu no esquecimento. Ninguém é maior e mais terrível que a eternidade, então evitamos pensar nela, enquanto nos prolongamos...E de fato nos esquecemos, quando admiramos o pequeno deus-ditador.
Ele me ofusca, algo que jamais aconteceu antes. Contudo, perder o brilho por alguns instantes é algo até bem-vindo. Já me tomaram como um troféu, e como criança-prodígio. Erroneamente. Brilhava demais, é fato, porém nunca quis. Os outros estavam lá fora, isentando-se e esperando que fosse eu a tomar decisões difíceis. Sempre se espera isso, não é? Diga-me que essa é a explicação, por favor!
Sempre se espera uma mente límpida e brilhante, e toda a genialidade, troféu lustrado reluzindo. Nunca se espera "menos", enquanto os planos fogem do controle. Por que não pode ser mais fácil?
Veja bem: o que peço não é um atalho, nem um caminho mais fácil. Quero apenas o direito de escolher. Não é muito, nem é pecado. A escolha é a salvação. Isso. Só a escolha salva. Quase fica bonito.
Quase, quase. Vivo em uma corda bamba de parcialidades. Um terço da vida, a metade do espelho, um canto da casa. Até meu choro agora é pela metade, e o conformismo também. Sou também só "meio" louca, por esse monólogo. É que tento me convencer, tento me demover de uma idéia fixa.
Eros. Já que não sei o nome dele, vou chamá-lo assim, por enquanto. Eros e sua harpa, Eros e sua música que me salva de mim.
A vertigem é até bem-vinda, não quero que acabe. Estou me equilibrando nas asas do deus do Amor, e tudo se perde lá embaixo. Só a nitidez no sol, e nas estrelas. Orbitando, rodopiando, rodopiando...
Vou desmaiar em meio ao frenesi, é quase certo.
A voz de Sophie vem de longe, distorcida.
- Você anda se drogando de novo?
O turbilhão turva-me. Não quero o toque da realidade.
- Não. Longe disso. Estou limpa, extremamente limpa. Tão limpa que só tomo água há mais de duas semanas.
Agora é um daqueles sonhos em que nós temos a impressão de estar caindo por dentro. As asas chacoalharam-se, e estou terrivelmente perto dos olhos dele. Agora sei de quem se trata. Eu o conheço. Muito mais do que eu gostaria. Eu sei que o conheço, apesar de nunca tê-lo visto na vida. Em alucinações, talvez...
Sonhos? Poderia até ser, se eu sonhasse. O sentimento invade, estremeço. É forte demais, e é discrepante demais. Um amor-ódio à primeira vista? Atípico. Preciso disfarçar o amor e o ódio, antes que a dor-remédio transborde demais fora de hora.
Not the Red Baron
Séculos e séculos, e ainda me consumo pela culpa.
Minto para mim, em frente ao espelho. Não sou essa pessoa que me dizem. Não. Eu não deveria dar ouvidos a entidades invisíveis: é algo irracional. Mas não, não...tudo faz muito sentido. Apenas me recuso a acreditar que exista aquele animalzinho cruel dentro de mim, capaz de destruir um amor por uma causa.
Diamonds And Rust
Aqui transcorrem o passar dos anos, a inocência perdida, os milagres desacreditados, a exatidão de uma ciência rigorosa e métrica. As mãos ainda cheiram a éter.
Existir não é leve nem pesado: é frio. E sobreviver é perigoso, terrivelmente perigoso.
"O preço é este: a distância. A galáxia em que se transformou ainda orbita em torno da sombra dos ideais. Mas você não quer estar ali, porque todas as faces são mais reais e mais estranhas que nunca. E você não sabe mais como reagir. Perdeu esta capacidade, sobreviver não importa mais. Não sem sonhos. Não quando o ideal se distancia e dissocia naquela sombra inalcançável.
Não quero mais nada."
Vem o cansaço todo, e a vontade de recolher-se - para onde?! Só o sono salva, mas por quanto tempo? - e os confrontos, e o vazio. O pesar.
É, eu estava em um momento desses. Antes da música. Algum fascínio sobrenatural arrastou-me de volta. Simplesmente não pude evitar, e quando percebi, tinha dado meia-volta e estava no meu ponto de partida.
A jornada desgasta, por maior que seja o amor à carreira. A carreira não é tudo, aliás. Frequentemente nos esquecemos disso, durante horas de dedicação à tentativa e consequentes erros persistentes- a perfeição não existe.
Eu costumava pensar desta forma. Até aquele dia.
Algo me despertou. Ou algo em mim despertou...Não importa. Importa apenas que esta parte agora desperta se transformou em fúria, fome e sede...de amor, se a minha concepção vaga e distorcida estiver correta.
Apenas ouvi a harmonia, a melodia, as notas, ou o que seja. Talvez eu deva chamar simplesmente de "música". Não sou nenhuma musicista para saber o termo exato. Mas sei o que significa virtuose, por exemplo. E aquele homem, protegido pelas sombras era um. Passamos muito tempo decorando mitos, então compará-lo a Orfeu foi, para mim, inevitável.
Havia uma doçura e uma dor diluída à melodia, de uma forma simplesmente perfeita. Hipnotizante. Não sei por quantas horas permaneci ali, apenas admirando. Permitindo que meus vazios se preenchessem, ainda que de forma sofrida, por saudade, e por - quem sabe? - certa paz...
Quem seria ele? De certa forma, alguém que se apresentava como uma salvação para mim. Para a minha alma. Ele era meu alento.
Semanas se passaram, e eu segui religiosamente a rotina de não voltar para casa depois dos ensaios. Permanecia escutando a música, e sequer sabia o nome, nem havia visto o rosto de quem revezava-se entre harpa e piano.
Minha mente sempre me pregou peças. E se ele não fosse mais do que a minha imaginação? Não poderia ser. Minha imaginação não me conforta...
Eu estava certa apenas de que ele não era ninguém que eu realmente conhecesse.
Ele era real. Eu precisava de um nome. Precisava de um rosto. Precisava tocá-lo, para senti-lo real. Precisava de um abraço.
