A primeira vez que Leo Soris e Nimue deram-se conta de que pertenciam à mesma espécie, foi anos após serem apresentados.
Leo largara os livros e os bares por um dia e fora procurar pelo complemeno que faltava-lhe naquela altura da vida: uma companhia.
A visão da garotinha crescida, exatamente da mesma idade da sua irmã mais nova, quase o apavarou. Nimue não poderia estar mais bonita, por outro lado. Ainda havia algo de delicado, infantil ou angelical em sua expressão, mas a ferocidade do olhar intensificara-se com os anos.
- Você age como a maré. - Dissera-lhe um dia, convicto de que aquela era uma verdade tão fundamental quanto o céu azul, ou o decorrer de dias e noites.
E ela era, de fato, a maré sedenta por emoções, sedenta por sentir. Navegava junto com a montanha-russa de emoções do primeiro amor, do primeiro beijo, e sempre queria mais. Era algo puro. Eles uniam-se pelo conhecimento e compreensão mútuos um do outro.
Cada um fizera do outro o porto seguro, onde poderiam ancorar qualquer que fosse a situação. Ou assim parecia...
Nimue desejava acreditar que o ato seguinte fora causado somente pelo passado sofrido de rejeição, mas ressentia-se em ver que fora impotente e que jamais poderia impedi-lo.
Ele era o Enforcado. O mesmo à frente dela, em cores fortes, na carta de tarot. Ele era um de seus castigos. Era a sua punição maior, a punição conhecida. Ela sabia que chegaria cedo ou tarde...
Ele matara uma parte preciosa dela. Nos volteios da mente conturbada pelo luto insuportável e pelo incoformismo, ela acreditava compreendê-lo.
Leo era o filho do meio da família Soris. Tinha uma irmã mais velha e outra mais nova. A mais jovem, Sophie, tornara-se a menininha de Leo. Este afeto incomum era explicado por fatores além da ternura que se vê entre irmãos, pelo fato de desde criança Sophie apresentar doenças seguidas, ou por laços sanguíneos.
Apesar de terem um teto, educação, saúde e comida, tinham apenas um ao outro.
Monica, a irmã mais velha, do alto de uma grande diferença de idade, mudara-se a fim de frequentar a universidade. A mãe não passava de uma sombra, ressentida, magoada, traída, e desesperada, que refugiava-se no trabalho. O pai trocava a jornada tripla de trabalho - que parecia ser mais por avareza do que por necessidade - por uma dupla jornada familiar: Constituíra outra família a apenas cem quilômetros do outro lar.
A ausência paterna era vista até como um alívio para Sophie e para Leo. De Sophie, ele cobrava coisas fora de alcance para uma criança ainda em tenra idade, construíra uma prisão para ela. E Leo tinha sorte quando o pai fingia não saber de sua existência, porque uma vez ciente da presença do garoto, o homem saía de controle por razões inexplicáveis.
Leo refugiara-se nos livros, na filosofia, no ato de lecionar que ele considerava tão nobre. Sophie passara por provações inimagináveis na tentativa de provar a si mesma que conseguiria algo da vida, torturara-se noite e dia para sentir-se menos miserável.
Nenhum dos dois jamais mencionara o passado familiar, mas quem quer que convivesse com eles durante a infância perceberia algo errado...
E Nimue percebeu. Percebera que a semelhança entre eles era enorme. Intuíra que sua melhor amiga e o irmão mais velho dela tinham problemas senão iguais, muito parecidos aos dela. Teve um impulso, vontade de agir para ajudar certo dia, mas fora detida por algo muito mais forte que a consciência...
"Não interfira!"
Tal pensamento tornara-se uma constante. Pensamento intruso, jamais partiria dela. Ela precisava agir, de alguma forma...
2:35
Madrugada insone. Alvoroço. Castigo, crime e libertação. Um funeral durante a manhã de sol, em meio a irmãos aflitos.
Podia apenas guaradar as memórias, tentar não julgar aquele que se fora. Parar de buscar explicações, parar de achar que era egoísmo, porque ela sabia que era algo além disso...
Restava-lhe, talvez, pedir desculpas aos outros enlutados, mesmo sem ter um motivo concreto.
Leo partira da mesma forma que vivera, nos bastidores. Holofotes jamais o atraíram, e o único momento de atenção que tivera na vida provavelmente foi insuportável. O nó na garganta fora incômodo demais? Certas indagações tomariam a eternidade. E tempo é o que menos se tem, então todos fecham as janelas e as cortinas e sufocam seus fantasmas...
Nossas vidas são descontinuadas. É saber do futuro tendo a sombra do passado a golpear minúsculas esperanças. Queremos tudo. Tudo é sempre demais, sempre é sempre demais...
_
Era seu primeiro mês ali, e já havia uma pilha imensa de livros no cômodo pequeno, escuro frio e barulhento. Dispensava qualquer explicação racional para estar ali. Dera-se conta no momento que chegara. Aquele jamais seria seu mundo. A cidade a sufocava com o relevo montanhoso, e ela acostumara-se a idolatrar o horizonte amplo e respirável.
Mais, havia a vida real. Havia as contas a pagar, o futuro que parece tão distante, as vidas que passam por ela, a fragilidade, o declínio, a súplica. Havia as expectativas em torno de si, terrivelmente aumentadas.
Sempre fora a "criança prodígio", mas cansara-se de tal pantomima de agradar com desempenho. Não precisava provar nada a ninguém. Sua real necessidade era viver, experimentar.
Uma ligação no meio da noite, e ela já sabia o que tinha acontecido. Intuíra, e fora impotente demais para evitar os desígnios misteriosos da vida. Restava-lhe esquecer as explicações e guardar a memória de seu irmão. Restava-lhe tentar encontrar forças.
Eram essas as lembranças que a assombravam a cada contato que tinha com Nimue. Suas vidas entrelaçavam-se de tal forma que jamais se desatariam, e jamais permitiriam uma aproximação como a de antes. Tudo devido à perda. Nenhuma delas sabia como lidar com isso, era a verdade.
- E hoje, senhoras e senhores, cada um dará um desfecho à história da Princesa Perdida. Quem quer começar?
Sophie olhou com ternura a mãos pequeninas e frágeis erguendo-se com animação. Talvez aquela fosse a emoção de uma mãe orgulhosa, que nutre seus filhos com a esperança...
- A tia Sophie é doidinha... - Mais do que um julgamento, indo daquelas crianças, aquilo era um elogio.
Sophie rodopiou, apertando o nariz de palhaço e fazendo o jaleco aberto esvoaçar. Colocou uma mão sobre os olhos e com a outra apontou, para descobrir os olhos logo depois.
- Você começa, Jim.
Jim colocara a mão no queixo, com a austeridade de quem faz questionamentos filosóficos e esboçara um sorriso.
- Ela precisa voltar para casa. Por isso, terá que viajar bastante. Vamos começar contando a história da viagem.
Respirar ainda era um suplício. Contudo, envolvera-se tanto quanto Sophie na história, e isso a fazia esquecer a própria dor. Aquele era o remédio para a sua alma, que ela negligenciara por semanas devido a problemas com o vício.
sábado, 23 de maio de 2009
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