sábado, 23 de maio de 2009

Percebia o frio do início da manhã como uma bênção, um congelamento bem-vindo de emoções e pensamentos tumultuosos. Passado, presente, futuro e possibilidades divergiam e convergiam na direção dela, bem em frente aos seus olhos.

Se alguém deseja saber o que é a loucura, deveria experimentar isso. Muito melhor do que doses e mais doses de álcool...

A noite anterior passava-lhe intermitentemente qual um filme em câmera lenta, cada detalhe agarrando-se a ela. Tal qual a lembrança de um momento, quando todo o resto deixava de importar.

Não importava a pesada e trágica maquiagem desfazendo-se, após horas a fio de palco, após horas a fio de esforço e tragédia. Fedra, trágica traidora.

Não faria diferença alguma que ela tomasse mais algumas doses de destilados, ninguém iria ao seu encontro. Ninguém perceberia quando ela passasse. Jamais se importariam com a triste caricatura de uma insone. Ou com o cigarro a meio caminho, entre a mão e a boca, a luta entre vontade e necessidade. Ninguém. Universo de ninguém.

O jogo resumia-se a tudo ou nada, e ela era parte da multidão de “ninguém”.

Talvez...Talvez ela devesse recorrer àquele velho recurso. Passara dois anos sem abusar das drogas ilícitas – o que não excluía tarjas-preta facilmente obtidos. – Já começava a sentir falta. Não a falta da abstinência, mas a quase-saudade quase-doce de uma terra prometida ou de uma infância esquecida.

Sequer ousara perguntar-se porque chegara ali. Motivos e explicações estavam fora de alcance. A custo, ignorou as peças que sua mente insitia pregar-lhe; latas de lixo, postes de iluminação, e árvores, mesmo os balanços da praça pareciam persegui-la. Acusavam-na.


Disfarçou o melhor que pôde – e estava convencida de que podia bastante, ela era uma excelente atriz, afinal – o tremor, e exibiu um sorriso nervoso por alguns segundos, antes de aproximar-se do homem. Talvez fosse ele quem ela procurava.

- Muito cedo para já estar fora de casa, não acha? Por acaso você é, ou conhece alguém chamado Gibreel?

A voz não era mais do que um murmúrio. Nimue jamais atribuíra a maneira contida de falar à timidez. Pelo contrário, de outro modo, seria incapaz de expor-se tanto. Estranheza. Desde muito cedo, pensava em dois mundos, separados por um véu. O lado de dentro, o isolamento, a segurança; o lado de fora, o exterior, a liberdade, os atrativos do desconhecido, o mundo do outro.

Fitou-o enquanto aguardava pela resposta. Talvez tivesse falhado na tentiva de esconder a tensão. Questiona-se se ele repararia no seu estado lastimável, ou se essa preocupação era infundada. Ao menos, ele não virara as costas para ela...ainda. Era algo a se considerar.

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