Amores em demasia. Eles parecem-me uma farsa, uma compensação. Há quem diga que o amor maior, as almas destinadas, raramente se encontram em vida. Ou em carne, que seja...O vão é preenchido por uma coleção de superficialidades. Tocar, sem amar. Viver amores contingentes, procurando eternamente o "amor necessário".
E agora permito-me ser a mulher que se entrega às garras de um predador irresistível. A luz do pequeno deus atrai. Quantas não foram fulminadas pela luz e pela música? Não indefesas, é certo; porém terrivelmente seduzidas...
Ele é um mundo à parte. Tento pôr freio à minha imaginação, e absorver cada segundo, cada movimento, cada olhar. Fragmentos sub-atômicos de nossas almas e lembranças.
A voz preenche as lacunas, me traz de volta ao presente.
- Estive te observando.
Devo pedir desculpas?
- Só queria ouvi-lo.
Diálogo de obviedades.
- É claro. Todos querem.
Preciso ser rápida nessas respostas...
- Não da mesma forma!
Ele suspira, finge cansaço, e há um sorriso de troça brincando em seu rosto.
- Uma admiradora?! Ora, a senhorita me impressiona!
A resposta vem de imediato.
- Obviamente o impressiono! Nenhuma outra foi capaz de passar tanto tempo em silêncio, posso apostar... E pelo que sei de homens como você, logo se vê que forma inúmeras...
Aplausos...Pode parecer paradoxal, mas muitas vezes, são eles que povoam meus pesadelos, ainda mais quando aplicados tão cinicamente.
- Bravo, bravo! Temos aqui uma espertinha. Inúmeras? Se não me engano, foram apenas dez. Para cada ano, a partir dos catorze.
O jogo começa a ficar interessante. Enaltecer o próprio ego não é difícil para mim, mesmo que seja apenas farsa.
- Não uma espertinha, Bardo. Uma mulher brilhante. Genial.
Algo no que eu disse o espanta, pela expressão de quem tenta assimilar algo, e pelo silêncio.
- Uma diva com complexo de superioridade?
Para alguém que convive com atores, a risada foi muito mal disfarçada com um pigarro forçado.
- Absolutamente não! Apenas uma que conhece-se bem! E pelo que vejo, será longo o nosso colóquio!
Arrasto um banco baixo até ficar de frente para ele. Sento-me, cruzando as pernas, e erguendo a cabeça, a atitude artificial de superioridade.
- Oh! Agora compreendo! Uma diva que encarnou bem demais a personagem e não conseguiu mais sair do papel...
Um gesto dramático da minha mão o interrompe.
- Assunto enfadonho. Falemos do Bardo, por hoje. De divas o teatro está cheio. De harpistas, porém...Há anos não temos um por aqui.
Mais um riso abafado.
- Não me parece ter tanta idade assim para falar em anos desta maneira.
- Engana-se. Tenho a impressão, aliás, de que você é alguém que vive em enganos...
- Não sou. Mas posso começar agora, se você está me enganando...
- Não estou.
- Duvido. Mas agora, silêncio, por favor!
Um abraço, e nenhuma possibilidade de fuga. A única saída é abandonar-me em meio ao turbilhão. A noite promete sonhos, estrelas, e canções...
Quanto aos sentimentos, serão deixados de lado por muito pouco tempo. O reconhecimento causa inquietações, dúvidas, e quero apenas viver as possibilidades, enquanto ainda há tempo...
domingo, 3 de maio de 2009
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