terça-feira, 5 de maio de 2009

O Enigma do Amor

"O conhecimento que tenho de ti
é um dos meus complexos castigos.
Adivinho através do véu que te cobre
o canto de amor sufocado,
o choque ante a palavra divina, a antecipação da morte."
(Murilo Mendes)







As vontades são monstros. Sempre há um certo assombro naquilo que se quer. É simplesmente humana a vida de assombros, viver em temor. É necessário sobreviver, então criam-se perigos e abrigos.


Em todo o canto, há construtores sofrendo de vertigens em torres altíssimas, e alguém que os eleva.


A jovem atriz que cede corpo e alma para antigas tragédias, e cuja vida confunde-se aos inumeráveis dramas, pode ser encontrada em qualquer lugar. Ela ainda é demasiado nova, alguns podem dizer. De fato, mas a trajetória já a fez vergar há muito...


No extremo oposto, inalcançável como se estivesse no alto da torre, está o harpista. O pequeno deus, o pequeno sol; a promessa de poesia e luz na vida que se configura sombria desde o início.


Mundos opostos encontram-se, colidem. Ardem. Seus protagonistas caem vertiginosamente. Ou talvez estejam se elevando...

- ...desvarios de Eros.

Por uma semana, o sorriso abandonara a expressão habitual de zombaria. Compreensões incompletas. Eros construía sonhos alicerçados em melodias perenes. Nimue habitava estas promessas, e sorria como jamais havia se permitido.

Ninguém gosta de ver algo belo se desfazendo. Poucos apreciam restaurar algo belo: é necessário tempo, esforço e dedicação.

O Amor lhe devolvera sua essência, e os seus dias. Ele em pouco tempo tornara-se o alento, o porto seguro; restaurava a alma. Chegava a ser uma quase-felicidade proibida. Quase perfeita. Amor entretanto, sofre a atração irresistível e magnética pelo sofrimento. Era apenas uma questão de tempo, ou um escorregão, e tudo se perderia. Ninguém gosta de ver algo belo se desfazendo...

A chuva fina era persistente. Os dois encontraram-se em frente à edificação antiga, datada de algum dos séculos passados. Ele, com os passos apressados e a aparência impecável. Ela, encolhida a um canto da escadaria, sem forças para fingir segurança. Amantes aturdidos com a vida que passa, escoa sem querer, com as tempestades cotidianas.


- Saia da chuva, Nim. Não apreciarão a visão de uma heroína ensopada...

Vagarosamente. Como nas tragédias. Uma pausa para os suspiros e para os sobressaltos. Ela agradeceu silenciosamente pela chuva misturando-se às lágrimas.


Levantou-se e lutou contra os passos trôpegos, até finalmente desabar nos braços dele. O que poderia dizer? O que ousaria dizer? Quanto teria que ocultar? Desacostumara-se às dores constantes.

"Não. Mas de qualquer forma, sempre apreciam uma heroína trágica morta. Lamentam-se, depois conformam-se. Era o destino. E do destino eu sei mais do que qualquer um gostaria. Este conhecimento todo de nada me serve, sequer posso partilha-lo. Não se evita o destino..."

- Nim! - O assombro era uma grande exclamação. Ele, pela primeira vez, gritava que não entendia. - Gostaria muito de saber o que está acontecendo...

O monstro emergia do turbilhão interior. Imagens e diálogos da infância, profecias em sonhos de cinco anos antes, e a noite anterior. A primeira noite na companhia de outro em cinco longos anos. E em que data! Era apenas a véspera, na verdade, mas todo aquele mês arrastava-se para ela, assombrada que era pelo castigo que ela mesma se impôs. Mesmo o sangue do flagelamento de devotos que vão muito além de suas crenças e limites seria pouco para o que percebia como pecados. Para o egoísmo do pesar. Foi o que Kevin deu a entender na noite anterior.

A voz dele repetia-se freneticamente, aumentava dez decibéis por segundo na mente de Nimue.

"- Só sofre quem quer. Não gosto de quem prolonga tragédias. Alguém morreu? Enterre e deixe que a pessoa tenha o direito tão sagrado do descanso eterno. Para quê apegar-se a espectros do passado?! Esse tipo de atitude só paralisa, só prende. "

Ele estava tão preocupado em manter o discurso acaloradamente cruel que sequer percebeu quando Nimue deixou-o falando sozinho. Mal conseguia equilibrar-se e deixou-se cair no chão do corredor por longos minutos.

Escutava a voz de Kevin ao longe, e outras sobrepunham-se. A orquestra de dentro da sua cabeça ainda a enlouqueceria. Se não pelos acordes caóticos, seria pela dor que provocava. A razão a abandonava e a dor brincava. Levou as mãos às têmporas, inutilmente, em uma tentativa de conter o impulso doloroso.

Cambaleou até o banheiro, quando sentiu que não estava mais tão frágil. Ainda assim, as mãos tremiam e a vertigem já havia se instalado definitivamente. Mal percebera que agarrara-se à pia com toda a sua força. Evitava olhar o espelho, até o momento em que não teve mais forças para evitar.

Era uma tarde de inverno em Londres. A despeito da quase convenção que determinava impessoalidade e contato mínimo, o jovem casal andava de mãos dadas. Sorriam, eles mesmos um mundo à parte.

"Felicidade nunca dura muito", foi o que pensou, ao deparar-se de repente com os detalhes da cena. Ela transfigurava-se e podia mais do que ver, sentia. Sentia a vertigem, o ventre despontando-se sob as roupas, e o sangue...

Não há arte divina na perda.

Então, acontecia. A pressão da mão sobre o ombro, o olhar cheio de rancor e até mesmo ódio, e as palavras que não precisavam ser ditas. O rompimento. As transigurações mais que internas. O abatimento da mulher, o harpista refugiando-se na música, mas ainda sem afastar-se fisicamente.

Voltas e voltas. A montanha-russa fazia questão de confundi-la, misturando todas as lembranças com as visões recentes e sonhos do passado. Tinha a impressão desconfortável de estar completamente desconectada da realidade, tal qual uma personagem de um livro que descobre-se marionete do escritor, ou alguém que desafia a gravidade, mas tem medo de altura. Era a crueza da realidade, com o paliativo do enigma. Com o inexplicável das emoções descontroladas. E no outro dia, era apenas a chuva, a dúvida, o pranto e o abraço.

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