"Eu me rendo" é algo perigoso de se dizer. E é a mais pura verdade. Palavras e suas devastações...Feitiços e suas consequências...
Séculos e séculos, e ainda me consumo pela culpa.
Minto para mim, em frente ao espelho. Não sou essa pessoa que me dizem. Não. Eu não deveria dar ouvidos a entidades invisíveis: é algo irracional. Mas não, não...tudo faz muito sentido. Apenas me recuso a acreditar que exista aquele animalzinho cruel dentro de mim, capaz de destruir um amor por uma causa.
Diamonds And Rust
Aqui transcorrem o passar dos anos, a inocência perdida, os milagres desacreditados, a exatidão de uma ciência rigorosa e métrica. As mãos ainda cheiram a éter.
Existir não é leve nem pesado: é frio. E sobreviver é perigoso, terrivelmente perigoso.
"O preço é este: a distância. A galáxia em que se transformou ainda orbita em torno da sombra dos ideais. Mas você não quer estar ali, porque todas as faces são mais reais e mais estranhas que nunca. E você não sabe mais como reagir. Perdeu esta capacidade, sobreviver não importa mais. Não sem sonhos. Não quando o ideal se distancia e dissocia naquela sombra inalcançável.
Não quero mais nada."
Vem o cansaço todo, e a vontade de recolher-se - para onde?! Só o sono salva, mas por quanto tempo? - e os confrontos, e o vazio. O pesar.
É, eu estava em um momento desses. Antes da música. Algum fascínio sobrenatural arrastou-me de volta. Simplesmente não pude evitar, e quando percebi, tinha dado meia-volta e estava no meu ponto de partida.
A jornada desgasta, por maior que seja o amor à carreira. A carreira não é tudo, aliás. Frequentemente nos esquecemos disso, durante horas de dedicação à tentativa e consequentes erros persistentes- a perfeição não existe.
Eu costumava pensar desta forma. Até aquele dia.
Algo me despertou. Ou algo em mim despertou...Não importa. Importa apenas que esta parte agora desperta se transformou em fúria, fome e sede...de amor, se a minha concepção vaga e distorcida estiver correta.
Apenas ouvi a harmonia, a melodia, as notas, ou o que seja. Talvez eu deva chamar simplesmente de "música". Não sou nenhuma musicista para saber o termo exato. Mas sei o que significa virtuose, por exemplo. E aquele homem, protegido pelas sombras era um. Passamos muito tempo decorando mitos, então compará-lo a Orfeu foi, para mim, inevitável.
Havia uma doçura e uma dor diluída à melodia, de uma forma simplesmente perfeita. Hipnotizante. Não sei por quantas horas permaneci ali, apenas admirando. Permitindo que meus vazios se preenchessem, ainda que de forma sofrida, por saudade, e por - quem sabe? - certa paz...
Quem seria ele? De certa forma, alguém que se apresentava como uma salvação para mim. Para a minha alma. Ele era meu alento.
Semanas se passaram, e eu segui religiosamente a rotina de não voltar para casa depois dos ensaios. Permanecia escutando a música, e sequer sabia o nome, nem havia visto o rosto de quem revezava-se entre harpa e piano.
Minha mente sempre me pregou peças. E se ele não fosse mais do que a minha imaginação? Não poderia ser. Minha imaginação não me conforta...
Eu estava certa apenas de que ele não era ninguém que eu realmente conhecesse.
Ele era real. Eu precisava de um nome. Precisava de um rosto. Precisava tocá-lo, para senti-lo real. Precisava de um abraço.
sexta-feira, 24 de abril de 2009
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