quarta-feira, 29 de abril de 2009

Reflexos

Pavor. Pavor em frente ao espelho. Nunca gostei do que vi e ainda vejo refletido ali. E por culpa e vergonha, sempre desvio os olhos. Nenhum fragmento agrada. Como se não bastasse o resto todo. Se ao menos, eu tivesse algum ponto forte, uma beleza estonteante, quem sabe? Quem sabe eu não pudesse disfarçar a parte má, a parte animalesca e cruel de mim?

Talvez não me entendam, ou finjam não entender quando falo sobre essa parte cruel. Ela é real. E está lá, possuindo qualquer um que não tenha um mínimo de controle. E controle é algo que desconheço...

O espelho é o espião-duplo instalado no lar. Nunca se sabe qual é o limite da confiança. Na maioria das vezes, a imagem causa desconforto. É como não se sentir bem em uma roupa. Mas não se pode despir o próprio corpo. E o desconforto descontrola...

O espelho mostra os erros. Potencializados, assombrosos, amplificados. Quando se fez tudo certo durante toda a vida, errar parece impossível, e uma vez ocorrido o deslize, não se sabe para onde correr. A própria voz assombra, então é melhor calar-se. Mas nenhum voto de silêncio é eterno, e a ausência da voz não diminui a consciência...

"Eros" ainda toca. Toca docemente, mas a doçura toda me machuca. Me mata. De vontade, é só um pouco...até agora. Até eu tocá-lo.

É previsível, como se fosse uma maldição. Basta um toque, e o sentimento amplifica-se, torna-se violento. Não pensarei sobre isto agora. Quero um nome. Um nome, apenas, e uma apresentação.

Estou certa de que ele me notou aqui, durante todas essas semanas. Silenciosamente. Da mesma forma que o meu olhar. Tão silencioso quanto a fagulha que apenas agora começa a alastrar-se. E tão inevitável quanto o transcorrer do tempo, ou mesmo quanto a morte, a pequena faísca reclamará a grandeza da destruição. E nem mesmo o pequeno déspota de corações sairá ileso.

As chamas estão em mim. Nos olhos, nos braços. Por isto, evito fitar o espelho, evito embalar alguém em um abraço. Por isto, resolvi acreditar que simplesmente fui moldada para a solidão. Por isto, escolhi ser uma expectadora e uma narradora, ou talvez uma figurante, e mais nada.


Ele me surpreende. Deixa-me atônita e quase sem reação. Tira as palavras mordazes habituais de meu pensamento. Ao contrário do que eu poderia esperar, ele se aproxima de mim.


A aproximação lenta e silenciosa, quase sorrateira, tem o efeito de um terremoto em uma edificação já condenada. Encontro-me incapaz de decidir se sinto demasiado ou pouco demais. O isolamento acústico da sala não permite que escutemos mais do que nossas respirações, em pouco tempo já perfeitamente sincronizadas.


A redoma sofre uma ruptura, e por um momento, há a promessa de alguma felicidade. Ou, no mínimo, de um sorriso sincero. Por uma vez. Eros e todos os outros gostariam desse meu novo sorriso? Ou preferem o disfarce distante, quase um sorriso de modelo, raro e forçado, que mesmo assim fica belo em fotografias? Ninguém olha nos olhos.


Olhar nos olhos é aterrador. E obsessivo, uma vez que se aprende a interpretar a alma dos outros. Sob a luz fraca, vislumbro apenas um pouco - mas o suficiente - da alma dele. Tem aquela tristeza distante de quem carregou mágoas por tempo demais. Faz meu olhar parecer um mero recepiente de pequenas revoltas.


Tenho esse péssimo hábito de obsecar-me por coisas, conceitos, e pensamentos aterradores. Hoje, o que aterroriza é o amor. O amor que se aproxima, ao qual inevitalmente nos entregaresmos até o fim, das nossas vidas, ou do amor.

Amamos de imediato porque sabemo-nos semelhantes.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Drop

Uma extensa lista de tarefas costuma me atormentar todos os dias. Não nasci para o mundo real. Penso demais. Falo demais. Falo demais sobre as minhas verdades porque elas são muitas: ao menos três verdades para cada personagem. A máscara mais conveniente para cada situação.

Há uma verdade fundamental que une essas quase múltiplas-personalidades: me perco sempre em devaneios, sucumbi ao cansaço, abracei a solidão como certeza, e quero transgredir de todas as formas. Mais, tenho medo. Tenho medo desta minha atitude. Me parece que, mais cedo ou mais tarde, ela me levará à loucura. Já estou afogando-me na loucura, gradualmente. Areia movediça, minha mente é um terreno pantanoso e escuro. Ou é apenas o reflexo do mundo?


Então estou aqui confrontando mais um dos temores básicos inerentes à condição humana: o da rejeição.


Talvez eu tenha cometido um erro ao admirá-lo: um pequeno deus, um pequeno sol, cuja imagem é proibida para os mortais. Neste momento, sou Psiquê carregando a vela, movida por uma curiosidade incontrolável de ver o rosto do amado. Mas ainda não o queimei...
É terrivelmente mais doloroso sermos repelidos por algo que admiramos desta forma, do que por algo que olhamos com certa indiferença.

Nunca deixamos de ser crianças. Pequenos ditadores dentro de bolhas. Eu mando em mim. É, eu sei que é mentira. Não consigo mandar em mim. Se eu pudesse, me forçaria a acreditar em milagres, em sonhos, em esperanças, e em mim.

Seria pedir demais, e pedir demais é pecado, não é isso o que aprendemos? Quero dizer, que devemos agradecer sempre, aquela coisa toda que se escuta em qualquer liturgia, em quase qualquer rito. No fundo, é apenas mais um artifício para fazer-nos culpados, e apelarmos para alguém que pretensiosamente representa a Entidade na Terra. E então entregamos as vontades, as jóias, o sangue, e invariavelmente, muito de nossa alma e de nossa razão, para nos vermos livres do fogo do inferno (quando muitas vezes, já vivemos em um).

É bem mais fácil acreditar em diabo do que em milagres. De súbito, nos damos conta de que não podemos mais. É uma enfermidade, uma pandemia. Vem silenciosa, sorrateira, não é como outras doenças. Quem pode imaginar que aquele cansaço não vai passar? Quem pode imaginar que um dia encontrará um amigo, talvez um irmão, condenando a si mesmo, com o movimento pendular presente entre a vida e a morte? Mais entre a morte e a vida, com a corda no pescoço. Ontem ele sorria, mas ninguém teve a coragem de olhar nos olhos. É mais fácil culpar o Diabo...

Quero correr. Mais rápido que nunca, até desaparecer em meio ao vento. Até me desintegrar. Já pensou que desaparecer dessa forma, se desintegrando, talvez seja a única forma de fugir? Seria indiferente. Somos descartáveis, todos nós.

Enquanto não nos atiramos de um promontório - É até poético, não? Sempre me lembro de Safo, a poetisa grega, quando falo em promontório. Ela se atirou de um, e quantos outros poetas não? - enquanto não somos substituídos pela imagem envelhecendo, pela identidade turvando-se, recolhemos as gotas de nossos sofrimentos, e vamos engarrafando, até que a dor pareça remédio.

Então chega alguém, sem aviso, e nos distrai. E sem querer, despejamos mais dor do que realmente temos, e deixamos transbordar.

- É para sempre? - Nos perguntam.

- Para sempre! - Afirmamos inadvertidamente. - Porque realmente não precisamos viver como os outros. Porque realmente não precisamos estar no palco a todo o tempo. Então, é para sempre.

"Para sempre" caiu no esquecimento. Ninguém é maior e mais terrível que a eternidade, então evitamos pensar nela, enquanto nos prolongamos...E de fato nos esquecemos, quando admiramos o pequeno deus-ditador.

Ele me ofusca, algo que jamais aconteceu antes. Contudo, perder o brilho por alguns instantes é algo até bem-vindo. Já me tomaram como um troféu, e como criança-prodígio. Erroneamente. Brilhava demais, é fato, porém nunca quis. Os outros estavam lá fora, isentando-se e esperando que fosse eu a tomar decisões difíceis. Sempre se espera isso, não é? Diga-me que essa é a explicação, por favor!

Sempre se espera uma mente límpida e brilhante, e toda a genialidade, troféu lustrado reluzindo. Nunca se espera "menos", enquanto os planos fogem do controle. Por que não pode ser mais fácil?

Veja bem: o que peço não é um atalho, nem um caminho mais fácil. Quero apenas o direito de escolher. Não é muito, nem é pecado. A escolha é a salvação. Isso. Só a escolha salva. Quase fica bonito.

Quase, quase. Vivo em uma corda bamba de parcialidades. Um terço da vida, a metade do espelho, um canto da casa. Até meu choro agora é pela metade, e o conformismo também. Sou também só "meio" louca, por esse monólogo. É que tento me convencer, tento me demover de uma idéia fixa.

Eros. Já que não sei o nome dele, vou chamá-lo assim, por enquanto. Eros e sua harpa, Eros e sua música que me salva de mim.

A vertigem é até bem-vinda, não quero que acabe. Estou me equilibrando nas asas do deus do Amor, e tudo se perde lá embaixo. Só a nitidez no sol, e nas estrelas. Orbitando, rodopiando, rodopiando...

Vou desmaiar em meio ao frenesi, é quase certo.

A voz de Sophie vem de longe, distorcida.

- Você anda se drogando de novo?

O turbilhão turva-me. Não quero o toque da realidade.

- Não. Longe disso. Estou limpa, extremamente limpa. Tão limpa que só tomo água há mais de duas semanas.

Agora é um daqueles sonhos em que nós temos a impressão de estar caindo por dentro. As asas chacoalharam-se, e estou terrivelmente perto dos olhos dele. Agora sei de quem se trata. Eu o conheço. Muito mais do que eu gostaria. Eu sei que o conheço, apesar de nunca tê-lo visto na vida. Em alucinações, talvez...

Sonhos? Poderia até ser, se eu sonhasse. O sentimento invade, estremeço. É forte demais, e é discrepante demais. Um amor-ódio à primeira vista? Atípico. Preciso disfarçar o amor e o ódio, antes que a dor-remédio transborde demais fora de hora.

Not the Red Baron

"Eu me rendo" é algo perigoso de se dizer. E é a mais pura verdade. Palavras e suas devastações...Feitiços e suas consequências...

Séculos e séculos, e ainda me consumo pela culpa.

Minto para mim, em frente ao espelho. Não sou essa pessoa que me dizem. Não. Eu não deveria dar ouvidos a entidades invisíveis: é algo irracional. Mas não, não...tudo faz muito sentido. Apenas me recuso a acreditar que exista aquele animalzinho cruel dentro de mim, capaz de destruir um amor por uma causa.




Diamonds And Rust


Aqui transcorrem o passar dos anos, a inocência perdida, os milagres desacreditados, a exatidão de uma ciência rigorosa e métrica. As mãos ainda cheiram a éter.

Existir não é leve nem pesado: é frio. E sobreviver é perigoso, terrivelmente perigoso.

"O preço é este: a distância. A galáxia em que se transformou ainda orbita em torno da sombra dos ideais. Mas você não quer estar ali, porque todas as faces são mais reais e mais estranhas que nunca. E você não sabe mais como reagir. Perdeu esta capacidade, sobreviver não importa mais. Não sem sonhos. Não quando o ideal se distancia e dissocia naquela sombra inalcançável.

Não quero mais nada."

Vem o cansaço todo, e a vontade de recolher-se - para onde?! Só o sono salva, mas por quanto tempo? - e os confrontos, e o vazio. O pesar.

É, eu estava em um momento desses. Antes da música. Algum fascínio sobrenatural arrastou-me de volta. Simplesmente não pude evitar, e quando percebi, tinha dado meia-volta e estava no meu ponto de partida.

A jornada desgasta, por maior que seja o amor à carreira. A carreira não é tudo, aliás. Frequentemente nos esquecemos disso, durante horas de dedicação à tentativa e consequentes erros persistentes- a perfeição não existe.

Eu costumava pensar desta forma. Até aquele dia.

Algo me despertou. Ou algo em mim despertou...Não importa. Importa apenas que esta parte agora desperta se transformou em fúria, fome e sede...de amor, se a minha concepção vaga e distorcida estiver correta.

Apenas ouvi a harmonia, a melodia, as notas, ou o que seja. Talvez eu deva chamar simplesmente de "música". Não sou nenhuma musicista para saber o termo exato. Mas sei o que significa virtuose, por exemplo. E aquele homem, protegido pelas sombras era um. Passamos muito tempo decorando mitos, então compará-lo a Orfeu foi, para mim, inevitável.

Havia uma doçura e uma dor diluída à melodia, de uma forma simplesmente perfeita. Hipnotizante. Não sei por quantas horas permaneci ali, apenas admirando. Permitindo que meus vazios se preenchessem, ainda que de forma sofrida, por saudade, e por - quem sabe? - certa paz...

Quem seria ele? De certa forma, alguém que se apresentava como uma salvação para mim. Para a minha alma. Ele era meu alento.

Semanas se passaram, e eu segui religiosamente a rotina de não voltar para casa depois dos ensaios. Permanecia escutando a música, e sequer sabia o nome, nem havia visto o rosto de quem revezava-se entre harpa e piano.

Minha mente sempre me pregou peças. E se ele não fosse mais do que a minha imaginação? Não poderia ser. Minha imaginação não me conforta...

Eu estava certa apenas de que ele não era ninguém que eu realmente conhecesse.

Ele era real. Eu precisava de um nome. Precisava de um rosto. Precisava tocá-lo, para senti-lo real. Precisava de um abraço.